quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Peter Gabriel 3 (Melt) (Whole Album) (HQ)

Peter Gabriel - III (Melt)



















Título: III (ou "Melt")
 Artista: Peter Gabriel
 Ano de lançamento: 1980
 País: Inglaterra
 Gênero: Rock Experimental / Rock Progressivo / New Wave / Worldbeat
 Duração: 45:32


Tracklist:

1. Intruder (4:54)
2. No Self Control (3:55)
3. Start (1:21)
4. I Don't Remember (4:41)
5. Family Snapshot (4:28)
6. And Through The Wire (5:00)
7. Games Without Frontiers (4:06)
8. Not One Of Us (5:22)
9. Lead A Normal Life (4:14)
10. Biko (7:32)


Peter Gabriel é mais conhecido por ser um dos fundadores e frontman do Genesis, a lendária banda de Rock Progressivo que se tornaria nos anos 1980 uma das maiores bandas pop do mundo sob o comando do baterista Phil Collins. Devido a desavenças na banda, no entanto, Gabriel deixou o Genesis em 1975 após lançar álbuns que se tornariam clássicos do Rock Progressivo, como Foxtrot (1972) e Selling England By The Pound (1973).
Peter Gabriel começou sua prolífica carreira solo em 1977, sendo seus quatro primeiros discos batizados de I, II, III e IV, respectivamente, do mesmo modo que já havia feito o Led Zeppelin com seus primeiros discos. Todos os quatro álbuns tiveram suas capas assinadas pela Hipgnosis, famosa empresa que desenhou as capas dos principais álbuns do Pink Floyd, sob o comando de Storm Thorgerson.

O terceiro disco foi batizado de Melt pois Gabriel aparece com metade do rosto derretido na capa. O primeiro álbum solo do artista  foi muito bem sucedido, enquanto que o segundo não conseguiu acompanhar a popularidade. Em 1980 foi lançado III, um álbum bastante experimental lançado bem na inflexão da década de 1970, marcada pelo ritmo pulsante do Rock e do Punk, com a década de 1980, que traria o uso massivo de sintetizadores e novas tecnologias para os estúdios de gravação. E Peter Gabriel foi um dos pioneiros nesse processo com o lançamento de Melt. Foi montado um super time de músicos, incluindo participações do próprio Phil Collins, Robert Fripp, Tony Levin e Kate Bush e Gabriel foi bem categórico em pedir aos bateristas para não utilizarem nenhum prato em seus kits.
Um dos motivos de Peter Gabriel ser um de meus artistas favoritos é sua versatilidade e experimentação em termos de instrumentação e nos temas que aborda em suas letras, sempre buscando uma faceta menos óbvia dos assuntos que aborda e com um sentimentalismo verdadeiro e não forçado. Em Melt, o artista já mostra os traços de ativismo humanitário que seguirá pro resto da vida, em Biko, uma canção sobre o ativista sul-africano anti-apartheid Stephen Biko. Elementos da música africana e de outros lugares que fogem à tradição eurocentrista e tonal da música começam a permear o trabalho de Peter Gabriel e o seguem até hoje.
Uma coisa que não se espera de um disco de um artista famoso nos anos 1980 é uma música de abertura como Intruder. A música abre com uma batida tribal em uma bateria gravada com reverb, dando a ela uma impressão mais poderosa e sonora e Gabriel foi um dos pioneiros no uso dessa técnica. Em seguida, uma guitarra destila acordes dissonantes que fariam um padre da Idade Média correr por sua segurança. O objetivo da canção é justamente esse, criar tensão, afinal, trata-se de um eu lírico que gosta de invadir as casas de outras pessoas e roubar roupas femininas por prazer. O sujeito na música aprecia que a pessoa saiba que ele está ali. Sons de palhetas raspando em cordas de nylon complementam o clima sombrio dessa música apavorante. Gabriel está aqui mostrando as facetas obscuras da condição humana e o pavor que isso provoca em uma sociedade de consumo baseada na propriedade privada: a invasão do espaço pessoal e a violação de objetos pessoais na justificativa de saciar um desejo doentio. Não é um assunto comum de ser abordado em um disco de Rock, convenhamos.
Peter Gabriel ainda aborda outros temas da condição humana pouco vistos no meio da música popular: obsessão (No Self Control), uma metáfora sobre a guerra com crianças jogando jogos bobos (Games Without Frontiers), diferenciação e isolamento (Not One Of Us) e a fragilidade que desemboca no desespero (Family Snapshot). Esse belo álbum cumpre qualquer função da arte, se é que ela tem alguma: é um convite à reflexão da condição humana, emociona, alegra, dá vontade de dançar em alguns momentos, de chorar em outros, é, enfim, um microcosmo da vida dentro de ondas sonoras, resultado da dedicação e paixão de um verdadeiro artista. Uma obra de arte imperdível!



Aquele abraço,
Fazendeiro submarino

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Big Star - #1 Record



















Título: #1 Record
 Artista: Big Star
 Ano de lançamento: 1972
 País: Estados Unidos
 Gênero: Power Pop / Pop Rock
 Duração: 37:03


Tracklist:

1. Feel (3:34)
2. The Ballad of El Goodo (4:21)
3. In The Street (2:55)
4. Thirteen (2:34)
5. Don't Lie To Me (3:07)
6. The India Song (2:20)
7. When My Baby's Beside Me (3:22)
8. My Life Is Right (3:07)
9. Give Me Another Chance (3:26)
10. Try Again (3:31)
11. Watch The Sunrise (3:45)
12. St 100/6 (1:01)


Fico muito feliz em escrever sobre o Big Star, pois esta é, na minha opinião, a banda mais subestimada da história do pop rock. Uma feliz descoberta de alguns anos atrás, o primeiro disco da banda, #1 Record (1972), figura entre meus favoritos de todos os tempos por suas melodias cativantes e arranjos maravilhosamente produzidos.
Expoentes do chamado Power Pop, gênero que se caracteriza por músicas mais curtas, acessíveis e de melodias marcantes sem perder a "pegada" do rock clássico, o Big Star surgiu em Memphis, Tennessee em 1971. Dentre suas principais influências, bandas da chamada British Invasion (The Kinks, The Beatles) e nomes americanos de peso como The Byrds e The Beach Boys. Daí percebe-se de onde vêm as inspirações para suas belas melodias combinadas com a energia do rock do final dos anos sessenta.

#1 Record é basicamente fruto de composições de Alex Chilton (falecido em 2010) e Chris Bell (morto em 1978 em um acidente de carro), tidos como os Lennon/McCartney da banda.
O disco abre com Feel, uma verdadeira porrada em uma clássica progressão de acordes de blues. Já de início se percebem os vocais muito bem executados por Chilton e Bell. O solo de guitarra nessa música é simplesmente um dos meus favoritos no rock'n'roll, por sua energia, simplicidade, entregando justamente o que se espera de um standard do blues rock.
The Ballad of El Goodo tem melodias imediatamente cativantes, quase que familiares ao ouvido inatento. Sendo, como o próprio título sugere, uma balada, esta canção mostra mais o lado pop da banda.
Os fãs da série de TV That 70's Show vão reconhecer logo In The Street, que é usada como abertura do programa, em uma versão mais pesada executada pelo Cheap Trick. Sem rodeios, é mais uma explosão de energia com vocais enérgicos e guitarras destilando riffs viciantes. Um clássico.
Thirteen, uma curta balada de dois violões acústicos na majestosa e frágil voz de Alex Chilton é uma das minhas favoritas no disco pois traz consigo um clima de paz e nostalgia indescritíveis.
Don't Lie To Me é um blues rock descaradamente pesado e desbocado. O velho tema da infidelidade conjugal é tratado com vocais aos berros e guitarras solando para todos os lados. A música ideal para os headbangers de plantão.
The India Song é a singela e bela contribuição do baixista Andy Hummel, uma canção bucólica com flautas e pianos em escalas exóticas, retratando uma vida simples e ideal em algum lugar calmo na Índia.
When My Baby's Beside Me novamente mostra a clássica receita do power pop, refrões pegajosos e repetitivos, imediatamente reconhecíveis.
My Life is Right mostra vocais afinadíssimos e uma introdução de piano de cortar o coração. O trabalho da bateria durante a música é preciso e enérgico, levando a música justamente onde ela precisa ir, sem perder o controle e sem causar monotonia.
Give Me Another Chance, um pedido de ajuda, mostra um lado mais melancólico do Big Star, um violão maravilhosamente gravado, novamente a voz de Alex Chilton sendo o destaque, junto com os backing vocals impecáveis. Com letras como "It's so hard just to stay alive each day" a banda mostra também a beleza pela tristeza. Essa pequena relíquia é coroada com a aparição de um Mellotron, um dos instrumentos mais fascinantes que já ouvi, precursor dos sintetizadores e principal responsável pelo som etéreo atingido por tecladistas em álbuns monstruosos como In The Court Of The Crimson King do King Crimson e Close To The Edge do Yes.
Try Again segue a mesma lógica da canção anterior, porém sem o mesmo brilho.
Watch The Sunrise é outra de minhas favoritas. O violão de doze cordas com afinação em Ré passeia nas escalas e produz um riff viciante, recorrente na canção. Certamente um destaque do disco.
O Big Star nos presenteia com uma última canção curtíssima, praticamente um fragmento, mas em seus 60 segundos de duração, St  100/6 mostra que o arsenal de belos acordes e melodias da banda certamente não estava acabando e assim, sem mais nem menos, esse pequeno disco se encerra, deixando uma saudade imediata e atestando a validade da Teoria da Relatividade para o tempo: serão 37 minutos de sua vida que passarão em sua cabeça em menos de 5 minutos.

O Big Star gravaria ainda mais dois discos antes de desistir de vez do show biz, apenas para realizar algumas reuniões no futuro. Mas essa pequena discografia foi o suficiente para inspirar futuros grandes nomes do pop rock, como o REM, o Teenage Fanclub e Wilco. A banda que pretensamente anunciava em seu nome a esperança do estrelato acabou por falhar em dominar o mundo, mas como toda boa arte, seu legado é perene e seus discos não ficam velhos jamais. Aproveite!




Aquele abraço,
Fazendeiro submarino

Ressuscitação / Sigur Rós - ( )

Título: (  )
 Artista: Sigur Rós
 Ano de lançamento: 2002
 País: Islândia
 Gênero: Post Rock/Ambient/Art Rock
 Duração: 72:05


Tracklist:

1. Untitled #1 (6:38)
2. Untitled #2 (7:33)
3. Untitled #3 (6:33)
4. Untitled #4 (6:57)
5. Untitled #5 (9:57)
6. Untitled #6 (8:48)
7. Untitled #7 (12:52)
8. Untitled #8 (11:43)



Resolvi desenterrar o Fazenda Submarina e tirar a poeira das velhas resenhas de discos, as quais transmitem minha exata opinião até o dia de hoje! Após quase 4 anos, é com prazer que retorno a escrever sobre discos que me fascinam na esperança de compartilhar meu amor com quem se interessar em ouví-los.
E para essa ressurreição escolhi um disco soturno, mas certamente belíssimo!

O Sigur Rós é uma dessas bandas que, desde o seu começo, desafiou convenções. A começar pelo seu país de origem, a misteriosa e gelada Islândia. E aí está um adjetivo apropriado para descrever (  ): gelado.
Sendo o terceiro disco da banda e altamente antecipado após o sucesso estrondoso de Ágætis byrjun, de 1999, (  ) veio como uma surpresa que chegou a ser considerada por muitos à época como pretensiosa: um álbum cujo único título são dois parênteses contendo oito músicas sem título. Indo além, todas as músicas são cantadas em Vonlenska (ao pé-da-letra: Esperancês), uma língua inventada pela banda contendo apenas poucas sílabas que remetem à fonética do Islandês e as palavras não possuem nenhum significado. Justamente por isso, o encarte do CD vinha com um livreto em branco, onde o ouvinte era convidado a escrever suas próprias impressões sobre as músicas onde as letras deveriam estar. Algum consideraram genial, outros consideraram pedante. Não faltaram comparações com o Radiohead que, à altura, já tinham lançado seu polêmico Kid A havia dois anos, disco que significou uma ruptura brusca da banda com o rock "convencional" e trouxe elementos eletrônicos e temas mais sombrios.
(  ) também refletiu uma mudança no som do Sigur Rós. Seu disco antecessor mostrou a "cara" da banda, com os vocais agudos de Jón Birgisson, muito piano e atmosfera de teclados, quarteto de cordas e a famosa guitarra tocada com um arco de violino. Por ser um disco sem título com músicas sem título, é difícil definir os temas abordados pela banda em (  ). Mas sabe-se que as quatro primeiras músicas representam a metade mais "animada" do disco, enquanto que as quatro últimas músicas são mais melancólicas e obscuras.
Contudo, é difícil definir a primeira música do disco como animada. Na verdade ela apresenta os acordes mais tristes que essa pessoa que vos escreve já ouviu. O clipe da música apresenta crianças brincando em volta de um carro em um futuro apocalíptico que ostenta um céu vermelho e neve preta. Mas não se deve subestimar a incrível beleza e paz que tal música proporciona, quase que uma marcha fúnebre que acalenta o ouvinte.
A segunda música apresenta a guitarra em um papel mais proeminente, carregada de reverb, a bateria como sempre minimalista e precisa, assim como o baixo e a atmosfera lúgubre e angelical dos teclados de Kjartan Sveinsson e do quarteto de cordas Amiina.
Já emendando do último acorde da música anterior, Untitled #3 mostra uma progressão de acordes hipnótica sobre a qual uma frase de piano se repete infinitamente, variando sobre o mesmo tema. A música segue em um crescendo até morrer no final, sempre acompanhando a mesma progressão de acordes. Novamente, vemos melodias belíssimas e tristes que certamente não interessarão ao ouvinte que não estiver disposto em manifestar qualquer sentimento.
A quarta música se destaca por ter sido usada na cena final de Vanilla Sky, filme estrelado por Tom Cruise e Penélope Cruz que traz em sua trilha sonora outras músicas do Sigur Rós e do Radiohead. Certamente a mais esperançosa das músicas da primeira metade do disco, é quase que um convite a um passeio pelos céus nas asas de um anjo. Com melodias bem mais alegres, a beleza triste das três canções anteriores derretem e a jornada pela primeira metade do disco termina, acompanhada por meio minuto de silêncio, para que o ouvinte se acostume com o que está por vir.
Sobre a segunda metade do disco, comentarei apenas a última canção do disco, Untitled #8. Esta é um ótimo exemplo de uma típica (e ótima) música de Post Rock: um riff contagiante que se repete constantemente em uma longa música que apresenta diversos crescendos até uma explosão final, certamente a única parte do disco que se pode chamar de Rock, quase que um Punk atmosférico. Apelidada de "Popplagið" (Música Pop), é uma favorita nos setlists da banda, pois possibilita extenso uso de pirotecnia no palco. A pulsante bateria que toma conta da música a partir dos 6:20 dá início ao crescendo que explode finalmente três minutos depois, um gran finale grandioso (não consegui escapar da redundância) que se encerra com uma nota Mi grave da guitarra distorcida.

De maneira geral, por ser um disco muito climático e ambiental, não é de fácil digestão, pois se exige que o ouvinte esteja disposto a enfrentar seus 72 minutos de melodias angustiantes e minimalistas. Mas, se apreciado corretamente e no estado de espírito correto, esse belo trabalho se mostra digno de ser considerado um dos melhores discos da primeira década do século XXI. O Sigur Rós viria a lançar no futuro discos mais acessíveis e menos taciturnos, mas (  ) merece destaque por seu vanguardismo contestado e pelo universo melancólico e belo que cria ao redor daquele que o escuta.



Em breve, mais resenhas!

Aquele abraço,
Fazendeiro submarino

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Porcupine Tree - The Incident




















Título: The Incident
 Artista: Porcupine Tree
 Ano de lançamento: 2009
 País: Inglaterra
 Gênero: Rock Experimental/Rock Progresivo/Metal Progressivo
 Duração: 75:52


Tracklist:


CD1:

1. The Incident (55:11)
  I. Occam's Razor (1:56)
  II. The Blind House (5:47)
  III. Great Expectations (1:26)
  IV. Kneel And Disconnect (2:03)
  V. Drawing The Line (4:43)
  VI. The Incident (5:20)
  VII. Your Unpleasant Family (1:49)
  VIII. The Yellow Windows Of The Evening Train (2:00)
  IX. Time Flies (11:41)
  X. Degree Zero Of Liberty (1:45)
  XI. Octane Twisted (5:03)
  XII. The Seance (2:39)
  XIII. Circle Of Manias (2:18)
  XIV. I Drive The Hearse (6:44)


CD2:

1. Flicker (3:42)
2. Bonnie The Cat (5:45)
3. Black Dahlia (3:40)
4. Remember Me Lover (7:34)


Disco recém-saído do forno!
É com grande honra que lhes apresento The Incident, o mais novo trabalho da banda inglesa Porcupine Tree. Formada em fins dos anos 80 e começo dos 90, a banda começou como um projeto solo do músico, compositor, multi-instrumentalista e produtor Steven Wilson. Com o passar dos anos, os membros Colin Edwin (baixo), Richard Barbieri (teclados) e Chris Maitland (bateria e percussão) juntaram-se ao projeto e , a partir de 1995, as composições tidas como próprias da banda começaram a surgir com o álbum Signify.
Porém, em 2002, Maitland deixou a banda e a procura por um novo baterista trouxe ao Porcupine Tree Gavin Harrison. Relativamente desconhecido à época, Gavin provocou uma mudança drástica no estilo da banda, com seu modo extremamente eclético de tocar bateria.
Desde então, seguiram-se o álbuns da fase pesada do Porcupine Tree: In Absentia (2002), Deadwing (2005) e Fear of a Blank Planet (2007). Isso conferiu ao grupo uma base de fãs mais jovens, interessados na cena do metal.

É nesse contexto que The Incident é lançado. Ao ouvir o álbum, percebe-se a maestria da banda em sair de uma atmosfera extremamente pesada para algo melódico e limpo sem provocar uma mudança brusca. E o charme de The Incident está justamente aí: atmosferas diferentes conduzidas com muito cuidado e habilidade.
Vamos à análise:

O álbum segue em termos a linha estrutural do seu antecessor, Fear of a Blank Planet, que foi um álbum conceitual a respeito da juventude pós-moderna e os problemas que a tecnologia, a mídia, o sexo, os medicamentos e a educação deficiente provocam em suas mentes, alienando-os da verdadeira vida.
Aqui temos uma peça de 55 minutos dividida em 14 partes que retrata um acidente de carro presenciado na vida real pelo frontman Steven Wilson. O título do álbum se refere à placa que ilustrava a cena do acidente: INCIDENTE.
O objetivo desta enorme suíte de quase uma hora de duração é passar ao ouvinte diversos sentimentos e, devo dizer, aqui o objetivo foi cumprido: o que eu presenciei foi uma coleção de climas, desde os mais pesados e assustadores até os mais lindos e alegres, passando por atmosferas melancólicas e outras mais agitadas.
Pode-se dizer que o divisor de águas do primeiro CD é a música Time Flies, a maior do disco. Para os que ouvirem e gostam de Pink Floyd, perceberão surpresos a descarada homenagem ao período Animals - The Wall (Dogs, Sheep e Is There Anybody Out There são alguns exemplos do que eu ouvi ali no meio!). A partir daí o tema incial é retomado em Degree Zero of Liberty e, após mais riffs pesadíssimos e intrincados, o álbum termina com a bela e triste I Drive The Hearse.

O CD2 traz quatro músicas inéditas escritas pela banda e, para os acostumados com o som do PT, verão que ali há terreno para muita adoração.

Em The Incident, mais do que nunca, Gavin Harrison dá um show à parte e mostra porque foi considerado o melhor baterista de rock progressivo do ano. Seus ritmos inconstantes e precisos casam perfeitamente com o baixo de Colin Edwin, um músico a se respeitar. Quanto aos teclados, garanto que vocês não ouviram nada parecido com as atmosferas e as soundscapes criadas por Richard Barbieri. E Steven Wilson prova mais uma vez neste movimento audacioso que o Porcupine Tree é uma banda a se prestar atenção.

Meu veredito é o seguinte: aqueles que se interessam por uma música que mexa com todos os sentidos, os exigentes no quesito qualidade de áudio, os amantes de álbuns conceituais, os que apreciam a beleza seja na alegria, no terror ou na depressão, ouçam este álbum. Caso queriam, como background procurem ouvir o In Absentia e o Fear of a Blank Planet. Vocês não vão se arrepender. E eu garanto.

Aquele abraço,
Jules - fazendeiro submarino

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Radiohead - OK Computer

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  Título: OK Computer
  Artista: Radiohead
  Ano de lançamento: 1997
  País: Inglaterra
  Gênero: Space Rock/Alternativo/Indefinível
  Duração: 53:27


 Tracklist:

1. Airbag (4:44)
2. Paranoid Android (6:23)
3. Subterranean Homesick Alien (4:27)
4. Exit Music (For a Film) (4:24)
5. Let Down (4:59)
6. Karma Police (4:21)
7. Fitter Happier (1:57)
8. Electioneering (3:50)
9. Climbing Up The Walls (4:45)
10. No Surprises (3:48)
11. Lucky (4:19)
12. The Tourist (5:24)



O Radiohead é uma daquelas bandas que suscita polêmica. Sua sonoridade, seus métodos não-convencionais de divulgar música e sua relação com a mídia são alvo de discussões ardentes entre fãs obcecados pela banda e pessoas que consideram sua música como "música para cortar os pulsos".
Tentarei deixar de lado essa discussão infindável e focar no álbum em questão e porque vocês devem escutá-lo.

1997: o fim do século XX se aproxima. Século que, desnecessário dizer, guardou uma quantidade fenomenal de eventos históricos, suas evoluções e involuções. A revolução tecnológica se encontrava a todo vapor, e um medo começava a assombrar a humanidade: o Bug do milênio. A partir do momento em que entrássemos no ano 2000, as máquinas entrariam em colapso, comprometendo nossa vida moderna e deixando o mundo em caos e escuridão.

É nesse cenário que o Radiohead elabora seu mais bem-sucedido álbum, OK Computer, em uma mansão de antiga arquitetura que antes pertencera à atriz Jane Seymour, na região de Bath.
Embora negado pela banda, o disco é tido por muitos como uma obra conceitual. Se me permitem uma comparação arriscada de cunho pessoal, em se tratando dos temas, OK Computer seria uma espécie de The Dark Side Of The Moon do fim do século XX. Digo isso porque os temas aqui abordados possuem certa semelhança com a delicadeza humana de Dark Side: paranóia, medo da morte, insanidade, guerra, existencialismo, transportes, objeção política, capitalismo, etc. Só que a mentalidade mudou, assim como o cenário e as condições: um mundo dominado por computadores e tecnologias que nos deixam escravos e podem muito bem arrasar nações inteiras. É perceptível a noção da fragilidade da vida perante um acidente de carro ("...an airbag saved my life" - Airbag), o sentimento de paranóia e a afirmação da humanidade em oposição ao mecanicismo ("I may be paranoid, but I am not an android" - Paranoid Android), o desejo de uma possível abdução para que pudéssemos ver as estrelas e o Universo, a Terra sob uma perspectiva exterior ("They'd show me the stars and the meaning of life..." - Subterranean Homesick Alien), assim como a capacidade de se reeguer perante decepções contínuas no dia-a-dia, o desejo de liberdade (Let Down), a receita da vida feliz (Fitter Happier), o desespero e a última solução no suicídio (No Surprises), o lado escuro do ser humano na horripilante Climbing Up The Walls, uma pitada de otimismo ("It's gonna be a glorious day, I feel my luck could change" - Lucky) e, por fim, uma crítica mordaz ao senso excessivo de velocidade da modernidade sobre turistas em Paris que não paravam um segundo em cada lugar que visitavam ("Idiot, slow down, slow down" - The Tourist).

O modo como Thom Yorke conduz as letras mostra que há algo especial para ser ouvido aqui, não menosprezem as palavras. O sentimento de sufoco e desesperança mesclado com a persistência inerentes ao ser humano moderno são claramente ouvidos nessa obra. Além disso, as atmosferas musicais e o instrumental são um show à parte. Influências musicais citadas por membros da banda variam de Miles Davis a Beatles, Queen e Pixies. Um jornal britânico, na época do lançamento de OK Computer, chamou o Radiohead de Punk Floyd, devido à sua psicodelia pesada e às vezes brutal. Vejam que há sim a abordagem do suicídio, assim como atmosferas quase que líquidas e vocais inspirados e emocionados, talvez daí venha a concepção de uma banda depressiva.

O que não se pode negar é que este álbum mudou definitivamente a indústria da música e como se pensa o rock moderno. Foi um pulo magistral do último trabalho da banda, The Bends, e apenas um passo na longa escala evolutiva do Radiohead, que viria a produzir mais tarde o estranhíssimo e obscuro Kid A. Mas isso será tratado em posts futuros, eu garanto ;)

Meu conselho final: baixem, comprem ou peguem emprestado este álbum. Não garanto que à primeira escutada as músicas serão digeridas, mas eu tenho certeza de que será uma experiência para não se esquecer tão cedo.


Aquele abraço,
Jules - fazendeiro submarino

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

John Coltrane - A Love Supreme

 http://wtjujazz.files.wordpress.com/2008/12/musiccatalog_j_john-coltrane-a-love-supreme-deluxe-edition_john-coltrane-a-love-supreme-deluxe-edition.jpg

     Título: A Love Supreme
     Artista: John Coltrane
     Ano de lançamento: 1965
     País: EUA
     Gênero: Jazz
     Duração: 33:02

Para iniciar, trago A Love Supreme, este que é considerado por muitos a obra-prima deste grande músico.

John William Coltrane nasceu em 23 de setembro de 1926 na Carolina do Norte, Estados Unidos. Faleceu precocemente em 1967, aos 40 anos. Conhecido como um multi-instrumentista, seu trabalho girou em torno do Sax Tenor, assim como o Alto e o Soprano.
O álbum em questão é uma ode à fé de Coltrane e seu amor por Deus (não necessariamente o Deus cristão, segundo Coltrane ele acreditava em todas as religiões). O contexto em que o álbum foi gravado é de extrema importância para entender a filosofia por trás da música: recentemente expulso da banda de Miles Davis devido a seu uso abusivo de heroína, Coltrane chegou a um ponto onde, ou ele entraria em ostracismo e atingiria o fundo do poço, ou faria algo para se revitalizar. E a segunda opção foi escolhida.

O álbum é uma suite de 4 partes:
  1. Parte 1: "Acknowledgement" – 7:47
  2. Parte 2: "Resolution" – 7:22
  3. Parte 3: "Pursuance"/Part 4: "Psalm" - 17:53

Na primeira parte, o elemento místico e espiritualista da música torna-se evidente. A peça começa com o soar de um gongo e, ao fim da primeira parte, Coltrane entoa o mantra "A Love Supreme" repetidas vezes, sua voz acompanhada de sua própria voz em overdubs.
Resolution abre com um breve solo de contrabaixo e o Sax passeia em escalas hipnóticas.
Pursuance nos mostra um maravilhoso solo de bateria seguido de uma das mais fantásticas frases do Jazz da história (na minha humilde opinião) conduzida majestosamente por Coltrane. Logo após somos contemplados por um incrível solo de piano de McCoy Tyner. O motivo segue, segue, e os dezoito minutos se passam em questão de segundos.

O estilo de Jazz adotado é o Modal Jazz, que data desde o final dos anos 50. A grande sacada aí é que o pianista toca uma sequência de acordes (dissonantes) sobre os quais o Sax sola, dando uma grande liberdade à composição de solos marcantes e motivos que, bem, há 40 anos ainda são hipnóticos hoje em dia. As quatro notas que se repetem aqui e ali no álbum simplesmente não saem da minha cabeça e, assim que as ouço, consigo ouvir em minha cabeça: A Love Supreme, A Love Supreme...

Em resumo, a todos aqueles que se interessam por Jazz e querem conhecer seus expoentes, meu urgente conselho que ouçam esta obra-prima, pois ao lado de Kind of Blue de Miles Davis, este álbum tem lugar definitivo na minha lista de melhor disco de Jazz da história.


Aquele abraço,
Jules - fazendeiro submarino