Título: III (ou "Melt")
Artista: Peter Gabriel
Ano de lançamento: 1980
País: Inglaterra
Gênero: Rock Experimental / Rock Progressivo / New Wave / Worldbeat
Duração: 45:32
Tracklist:
1. Intruder (4:54)
2. No Self Control (3:55)
3. Start (1:21)
4. I Don't Remember (4:41)
5. Family Snapshot (4:28)
6. And Through The Wire (5:00)
7. Games Without Frontiers (4:06)
8. Not One Of Us (5:22)
9. Lead A Normal Life (4:14)
10. Biko (7:32)
Peter Gabriel é mais conhecido por ser um dos fundadores e
frontman do
Genesis, a lendária banda de Rock Progressivo que se tornaria nos anos 1980 uma das maiores bandas pop do mundo sob o comando do baterista
Phil Collins. Devido a desavenças na banda, no entanto, Gabriel deixou o Genesis em 1975 após lançar álbuns que se tornariam clássicos do Rock Progressivo, como
Foxtrot (1972) e
Selling England By The Pound (1973).
Peter Gabriel começou sua prolífica carreira solo em 1977, sendo seus quatro primeiros discos batizados de I, II, III e IV, respectivamente, do mesmo modo que já havia feito o
Led Zeppelin com seus primeiros discos. Todos os quatro álbuns tiveram suas capas assinadas pela
Hipgnosis, famosa empresa que desenhou as capas dos principais álbuns do
Pink Floyd, sob o comando de
Storm Thorgerson.
O terceiro disco foi batizado de Melt pois Gabriel aparece com metade do rosto derretido na capa. O primeiro álbum solo do artista foi muito bem sucedido, enquanto que o segundo não conseguiu acompanhar a popularidade. Em 1980 foi lançado
III, um álbum bastante experimental lançado bem na inflexão da década de 1970, marcada pelo ritmo pulsante do Rock e do Punk, com a década de 1980, que traria o uso massivo de sintetizadores e novas tecnologias para os estúdios de gravação. E Peter Gabriel foi um dos pioneiros nesse processo com o lançamento de
Melt. Foi montado um super time de músicos, incluindo participações do próprio
Phil Collins, Robert Fripp, Tony Levin e
Kate Bush e Gabriel foi bem categórico em pedir aos bateristas para não utilizarem nenhum prato em seus kits.
Um dos motivos de Peter Gabriel ser um de meus artistas favoritos é sua versatilidade e experimentação em termos de instrumentação e nos temas que aborda em suas letras, sempre buscando uma faceta menos óbvia dos assuntos que aborda e com um sentimentalismo verdadeiro e não forçado. Em
Melt, o artista já mostra os traços de ativismo humanitário que seguirá pro resto da vida, em
Biko, uma canção sobre o ativista sul-africano anti-
apartheid Stephen Biko. Elementos da música africana e de outros lugares que fogem à tradição eurocentrista e tonal da música começam a permear o trabalho de Peter Gabriel e o seguem até hoje.
Uma coisa que não se espera de um disco de um artista famoso nos anos 1980 é uma música de abertura como
Intruder. A música abre com uma batida tribal em uma bateria gravada com
reverb, dando a ela uma impressão mais poderosa e sonora e Gabriel foi um dos pioneiros no uso dessa técnica. Em seguida, uma guitarra destila acordes dissonantes que fariam um padre da Idade Média correr por sua segurança. O objetivo da canção é justamente esse, criar tensão, afinal, trata-se de um
eu lírico que gosta de invadir as casas de outras pessoas e roubar roupas femininas por prazer. O sujeito na música aprecia que a pessoa saiba que ele está ali. Sons de palhetas raspando em cordas de nylon complementam o clima sombrio dessa música apavorante. Gabriel está aqui mostrando as facetas obscuras da condição humana e o pavor que isso provoca em uma sociedade de consumo baseada na propriedade privada: a invasão do espaço pessoal e a violação de objetos pessoais na justificativa de saciar um desejo doentio. Não é um assunto comum de ser abordado em um disco de Rock, convenhamos.
Peter Gabriel ainda aborda outros temas da condição humana pouco vistos no meio da música popular: obsessão (
No Self Control), uma metáfora sobre a guerra com crianças jogando jogos bobos (
Games Without Frontiers), diferenciação e isolamento (
Not One Of Us) e a fragilidade que desemboca no desespero (
Family Snapshot). Esse belo álbum cumpre qualquer função da arte, se é que ela tem alguma: é um convite à reflexão da condição humana, emociona, alegra, dá vontade de dançar em alguns momentos, de chorar em outros, é, enfim, um microcosmo da vida dentro de ondas sonoras, resultado da dedicação e paixão de um verdadeiro artista. Uma obra de arte imperdível!
Aquele abraço,
Fazendeiro submarino
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